segunda-feira, 19 de julho de 2021

Vidas em risco, por Carlos Lula


Doeu na alma ouvir o relato desesperado de uma senhora alagoana durante entrevista sobre compra de alimentos para um telejornal local. “Tudo muito, tudo muito alto, a gente não sabe nem o que comer. A gente não compra mais carne, o dinheiro não dá. Eu sou aposentada e continuo trabalhando”, contou aos prantos. Os dias estão absurdamente mais difíceis.

A inflação, segundo especialistas em economia, deve chegar a 6,6%. É uma grave piora nos últimos três anos no país, que, em 2017, chegou a 2,95% de inflação. Diversos fatores implicam nesta piora. A pandemia da Covid-19, a crise econômica mundial e, sobretudo, a fraqueza da nossa política interna, sem dúvidas.

A piora anual foi sentida com a taxa de desemprego se mantendo alta em todos os anos, desde o início da atual gestão presidencial. Hoje, os mais de 14,8 milhões de desempregados sentem que já não é possível uma mudança de comportamento econômico no país a curto prazo. Nem mesmo os autônomos conseguem manter o sustento, em razão da crise sanitária, que afastou clientes e reduziu a circulação de pessoas.

É uma avalanche de desespero. O levantamento mais recente do DEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontou ser necessário um salário equivalente a 5.400 reais para uma família de quatro pessoas, sendo dois adultos e uma crianças, custear os alimentos dos itens de cesta básica. A realidade é que os mais pobres sofrem infinitamente mais com a inflação em alta.

Com o piso nacional de 1.100 reais, um trabalhador compromete, em média, 54% do salário com alimentação. Sobra pouco ou quase nada para gastos com energia, gás, água, aluguel, vestuário, transporte, saúde, educação e lazer.

Acontece que 65 milhões de pessoas sequer são enquadrados nestes que vão comprar alimentos e escolher as contas as pagar. No Brasil, 13 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza – com 151 reais por mês – e 52 milhões estão na pobreza – com renda de até 436 reais. Alimentar-se com itens da cesta básica é um luxo e carece de doadores.

Ao final de 2020, a pandemia deixou 19 milhões de brasileiros com fome, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Com a continuidade da crise de saúde pública, econômica e política, este número de pessoas em situação insegurança alimentar deve crescer até o final do ano.

O desespero no telejornal é só um fragmento da realidade. Alguém dentro do supermercado que busca manter a dignidade de viver bem, com itens básicos, mas trabalha tanto a ponto de não saber se conseguirá pagar a sacola de alimentos, sendo necessário reduzir quantidade e qualidade para garantir alguma alimentação para os próximos dias. O sentimento dela é compartilhado com 116 milhões de brasileiro. Depois, Deus proverá.

Enquanto o brasileiro passa fome, discute-se 5,7 bilhões de reais para o fundo eleitoral, em 2022. Para este ano, a solução foi pagar entre 150 e 375 reais para famílias sobreviverem à crise. Surreal.

Para aliviar o fardo com tantos gastos, no Maranhão, nós realizamos investimentos para que os mais pobres nunca precisem de dinheiro para ter acesso aquilo que lhes é de direito fundamental: a saúde.

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