segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O HOMEM QUE CALCULAVA, por Carlos Lula


Quando criança, sempre preferi a matemática à gramática. Adorava passar horas fazendo contas e tentando resolver os problemas mais difíceis do livro de atividades. Confesso, caro leitor, que ser um tanto esquisito moldou minha personalidade.

Isso é tão verdadeiro que passei diversas tardes lendo e interpretando “O Homem que Calculava”, romance do escritor Malba Tahan, heterônimo do professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza, que narra as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir na Bagdá do século XIII.

Achava simplesmente incrível. Me recordo do clássico problema dos camelos e como mostrava aquilo a diversas pessoas, querendo que elas solucionassem o enigma. Permitam-me contá-lo aqui. Nosso matemático Beramiz, que andava com seu amigo de camelo, encontra três homens em acalorada discussão. Eram irmãos e pretendiam dividir os 35 camelos que o pai deixara como herança. O mais velho receberia metade, o do meio ficaria com a terça parte, e o mais novo, a nona parte do lote. Por mais que tentassem fazer a divisão, ela nunca dava certo.

Beramiz, então, se ofereceu para solucionar o problema, pedindo para acrescentar o camelo que o carregava à partilha. Com agora 36, e não mais 35 camelos, realizou a vontade do falecido pai. O filho mais velho, que deveria receber a metade de 35, ou seja, 17,5, receberia a metade de 36, portanto, 18. Ele saiu lucrando, portanto, não poderia reclamar.

O filho do meio deveria receber um terço de 35, isto é, 11 e fração; recebeu um terço de 36, ou seja, 12. Também saiu lucrando. O mais novo, então, recebeu a nona parte de 36, um total de 4 camelos. Também ficou no lucro. Os irmãos estavam em paz.

Mas somando 18+12+4, temos o total de 34 camelos. Sobraram dois. Um era o camelo do amigo do matemático. Mas esse outro camelo, de onde surgiu? Como cada um dos irmãos saiu lucrando e ainda sobrou mais um animal? Bem, essa é a charada matemática. O certo é que, no livro, o camelo que sobrou ficou para Beramiz.

Digo isso a pretexto de uma inacreditável história surgida esta semana em razão das máquinas de diálise no novo Centro de Hemodiálise São Luís. Então, vamos lá!
Segundo a denúncia, digna de um realismo fantástico, teríamos inaugurado um centro de diálise com 40 máquinas e, em funcionamento, teríamos apenas 14. Estaríamos deixando pacientes sem atendimento.

Bem, se tivessem lido Malba Tahan, não teriam passado esse constrangimento. Explico. À época da inauguração, noventa pacientes aguardavam por uma vaga. O centro tem capacidade de atender 240 pessoas.

Numa conta simples de divisão,uma máquina pode atender até seis pacientes, em turnos e dias alternados. Com 14 máquinas em pleno funcionamento, quantos pacientes conseguiríamos atender? 14 vezes seis. Praticamente os noventa que aguardavam na fila de espera. Por que não logo quinze? Porque ninguém inicia a diálise sem antes passar por nova bateria de exames e consulta a um nefrologista. Dos noventa, até agora, cerca de setenta já iniciaram o tratamento. As quatorze máquinas, por ora, são suficientes.

Precisamos de 40 máquinas funcionando simultaneamente agora? Lógico que não. Pelo contrário, pela primeira vez na história, zeramos a fila de espera por diálise.  Aumentamos, em 5 anos, mais de 1.000% em capacidade de atendimento. E já temos vagas a mais porque sabemos que a tendência é surgirem mais pacientes ao longo do tempo.

Contas de matemática básica, fáceis de serem feitas e que fazem mesmo o mais desavisado leitor se pensar: que tipo de denúncia sem pé nem cabeça é essa?

O mesmo denunciante veio falar que o nosso Hospital de Traumatologia e Ortopedia realiza 15 cirurgias por mês. Ou um procedimento a cada dois dias. Bem, a unidade faz mais de 300 por mês e está prestes a completar 2 anos fazendo quase 7 mil cirurgias. Matemática, simples matemática.

Ninguém precisa fazer surgirem camelos de onde menos se espera, ninguém precisa ter a genialidade de um Beramiz, nem mesmo ser um grande gênio da lógica, mas fazer simples operações de divisão e multiplicação antes de sair falando sobre o que não se sabe é o mínimo a se exigir de quem se propõe a fazer um controle sério do poder público.

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