domingo, 11 de novembro de 2018

Sobre pontos e linhas, por Carlos Lula


Vocês conhecem Samuel Morse? Não? Pois me permitam contar uma pequena história dele. Ano após ano dedicado a dominar a pintura nas mais renomadas escolas de arte da Europa e dos Estados Unidos, Samuel Morse, enfim, recebeu reconhecimento por seu trabalho ao ser convidado a pintar o herói da Revolução Americana, o Marquês de La Fayette. Mil dólares para o ano 1825 era uma fortuna. O valor se quer se comparava ao prazer que deveria sentir por tamanho prestígio e notoriedade.

Samuel beijou seus dois filhos, se despediu da esposa, já grávida do terceiro. Viajou por longos dias de Connecticut até Washington. Já no estúdio, um dia antes de se encontrar com o grande herói, um mensageiro bate à sua porta, entrega um bilhete escrito “esposa mal após parto”. Imediatamente Morse faz a longa viagem de volta para casa, desta vez sem parar, seis longos dias de verdadeira aflição montado num cavalo.

Ao chegar em casa descobre a terrível notícia: a esposa havia morrido. Não apenas havia morrido como já havia sido enterrada. Morse acabou por descobrir que Lucretia tinha morrido antes mesmo de o mensageiro bater à sua porta.

Foi assim que Samuel Morse passou os próximos 45 anos da sua vida inventando algo que impedisse outras pessoas de sentirem o que ele sentiu naquela noite. Por meio de uma linguagem de pontos e linhas, conhecidas hoje como Código Morse, Samuel quis transformar o espaço e a distância em ilusões. O telégrafo transmitiria a vida em tempo real, mesmo que para enviar mensagens de esposas falecidas.

Geralmente é a dor, mais que o amor, que nos leva por caminho antes nunca imaginado. Se você planejou seus estudos, seu emprego futuro, sempre soube sua missão. Ótimo! Mas se a vida te levou para um caminho totalmente oposto – seja por dor ou amor – eu te entendo. 

Minha família é envolvida com a área da saúde. Eu quis seguir as humanidades. E, por humanidade, acabei por chegar no cargo da saúde, que ora ocupo. Uma ironia? Talvez. O zelo pelo mais necessitado me fez aceitar essa missão, e, por isso, é na dor que me sinto tentado a dizer que, por muitas vezes, já desejei largar tudo, mas é o amor que finca meus pés na responsabilidade do cargo que ocupo.

A dor de Samuel Morse ajudou o mundo inteiro a estar tão conectado que hoje podemos nos despedir do outro em meio a uma chamada de vídeo. Eu bem sei que o caminho percorrido através da Secretaria de Saúde do Maranhão, embora não tenha salvo todas as vidas, salvou milhares de maranhenses.

Ajudou a salvar a criança com microcefalia (e resgatar sua família), salvou o paciente de câncer, salvou o dependente químico, salvou o edêntulo (desprovido de dentes), salvou a mãe e seu bebê, salvou o paciente renal crônico. Embora a mídia muitas vezes faça o estardalhaço com a morte, saibam que é pela vida que lutamos. Não é à toa que abrimos anualmente, em média, 5 novos serviços de saúde.

O trabalho apaixonado de Morse o fez um artista reconhecido, mas foi a dor que sentiu e jamais desejou a outra pessoa que o impulsionou a dedicar-se àquela invenção. Seja o amor ou a dor a nossa motivação, importa que cumpramos nosso papel aqui e agora, com dedicação e zelo, como se para salvar a vida de alguém a quem amamos ou para levar mais dignidade às despedidas. Trançando, como Morse fez, nossas vidas e as dos outros pela costura de pontos e linhas.

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