A cautela é necessária. Na falta da prudência, sobram experimentos de alto risco e efeitos controversos, no mínimo. Em 1976, quando a gripe suína (um vírus do tipo Influenza A, subtipo H1N1) começou a fazer vítimas nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças pediu ao presidente Gerald Ford aprovação da campanha de vacinação em massa. Em fevereiro, os primeiros casos. No mês de outubro a vacinação começou e deu errado.
Logo no início da campanha, as primeiras reações à vacina foram mais do que um corpo febril e vermelhidão no local da injeção, alguns americanos foram diagnosticados com a síndrome de Guillain-Barré, que provoca paralisia facial. De repente, 11 estados tinham casos de reação adversa e o programa de imunização foi suspenso.
Quando os riscos são altos, a história nos acende o alerta. No atual cenário, a corrida para encontrar a vacina que garanta imunidade em massa contra o novo coronavírus tem sido uma preocupante para a saúde, para a ciência, para as nações. Embora os avanços científicos apontem respostas animadoras, uma solução em pouco tempo pode ser considerada segura?
Na última semana a notícia sobre a vacina russa ganhou a cena. Vladimir Putin anunciou o registro da primeira vacina contra a Covid-19 e a testagem em massa para outubro. No Brasil, a esperança e a incerteza tomaram lugar. O debate ganhou um tom de dúvidas. Enquanto, o Governo Federal assina medida provisória para investir R$ 1,9 bilhão na vacina de Oxford, a gestão de São Paulo está na torcida pelo da CoronaVac, vacina da empresa chinesa Sinova, ambas em fase de testes.
Durante entrevista esta semana, a presidente do Instituto Questão de Ciência, Natalia Pasternak, fez uma consideração importante sobre esta fase final das seis vacinas em teste contra a Covid-19 e a ânsia social em receber a dose imunizante com certa pressa. “Todas as candidatas são apenas promissoras”. Segundo a explicação da doutora em microbiologia, a última etapa é a mais demorada, requer robustez no estudo para atestar segurança e eficácia.
Nesta mesma perspectiva, o médico americano Gregory Poland, que dedicou a carreira ao estudo sobre vacinas, também revela preocupação com os estudos apressados, chegando até mesmo a questionar a segurança e durabilidade da proteção concedida pelos apressados experimentos.
A vacinação é uma possibilidade quase palpável, mas há um percurso que não deve ser interrompido por interesses que sobreponham a segurança e a eficácia cientificamente comprovadas. Pela atitude precipitada e suas consequências, embora aprovada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças e reprovada pela Organização Mundial de Saúde, Gerald Ford perdeu a disputa presidencial para Jimmy Carter. Mas o pior resultado foi outro: americanos perderam suas vidas na tentativa de prevenir uma gripe.
Com mais de 100 mil óbitos por Covid-19, o Brasil deve ser muito cauteloso quanto à vacina. O objetivo dela é proteger os brasileiros dos efeitos dessa terrível doença, mas de modo algum podemos arriscar o “vale tudo” nesta fase da pandemia. Enquanto a ciência não encontra a imunização, distanciamento social, higienização e uso de máscaras nos servem de proteção.
Para autoridades de saúde, a importância da robustez dos estudos da vacina contra a Covid-19 é mais importante que definir o calendário de imunização em massa. Em contrapartida, ligo a TV e assisto autoridades políticas mundiais definindo prazos, que alimentam uma falsa esperança em nosso povo.
Caros leitores, a história é uma eterna repetição. Já no final do século 19, Karl Marx, fazia o alerta que permanece atual: Hegel havia dito que fatos de grande importância tendiam a se repetir por duas vezes. Marx completou: “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Diante de todas as experiências adquiridas desta pandemia, devemos resistir com vigor a qualquer tentativa de tornar este instante histórico em uma vergonhosa farsa.

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