Após a polêmica reunião ministerial do dia 22 de abril, divulgada por ordem judicial, o presidente Jair Bolsonaro
realiza novo encontro nesta terça-feira, 8, no Palácio da Alvorada,
para tentar melhorar a imagem e mostrar as ações do governo relacionadas
ao novo coronavírus. Desta vez, no entanto, o encontro é televisionado, transmitido ao vivo pela TV Brasil.
No início da reunião, o presidente citou a resposta de uma integrante da Organização Mundial da Saúde (OMS)
que afirmou, na segunda-feira, que os pacientes assintomáticos do novo
coronavírus não estão impulsionando a disseminação da covid-19. Segundo
ela, esses casos são raros.
Para Bolsonaro, que é abertamente
contrário ao isolamento social, se o entendimento for comprovado poderá
sinalizar uma "abertura mais rápida do comércio e a extinção de medidas
restritivas". O Brasil atualmente tem mais de 37 mil mortes e 700 mil
casos da doença.
Segundo o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto,
13 ministros apresentarão trabalhos feitos para o combate à pandemia na
reunião de hoje. Na do dia 22 de abril, as medidas de enfrentamento à
covid-19 ficaram em segundo plano.
"Esse pânico que foi pregado
lá trás por parte da grande mídia começa talvez a se dissipar levando em
conta o que a OMS falou por parte do contágio dos assintomáticos",
declarou Bolsonaro. "O governo federal espera algo de concreto nas
próximas horas, nos próximos dias, o que será muito bom para o Brasil e o
mundo. A OMS falará com certeza sobre as suas posições adotadas nos
últimos meses, o que levou a muita gente a segui-la de forma cega",
disse.
Assintomáticos
A chefe do
programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria van
Kerkhove, fez a declaração na segunda-feira durante pronunciamento no
qual argumentava que a contenção da transmissão da covid-19 pode ser
mais rápida com a localização e o isolamento dos casos sintomáticos.
Entretanto, ela ressaltou que há diferença entre assintomáticos (sem
sintomas) e pré-sintomáticos, que são as pessoas que vão desenvolver
algum sintoma da doença.
A explicação de Maria durante entrevista
no começo da tarde foi alvo de críticas e dúvidas. Horas depois, em seu
perfil no Twitter, ela reforçou que há diferença entre pacientes
assintomáticos e pré-sintomáticos. Além disso ela recomendou a consulta
ao guia da OMS publicado na sexta-feira, 5, que trata do uso de máscaras para a proteção.
No
documento, a entidade diz que "estudos mais abrangentes sobre a
transmissão de indivíduos assintomáticos são difíceis de conduzir", mas
cita um trabalho como exemplo. A pesquisa aponta que, entre 63
indivíduos assintomáticos estudados na China, havia evidências de que nove (14%) infectaram outra pessoa.
Ao
analisar o tema, Maria citava países com grande capacidade de testagem e
rastreio. "Temos alguns relatos de países que estão fazendo rastreio de
contatos muito detalhados, estão seguindo casos assintomáticos,
seguindo contatos e não estão encontrando transmissões secundárias. É
muito raro", disse van Kerkhove.
Em alguns casos, pontuou, quando
uma segunda análise dos supostos casos assintomáticas é feita,
descobre-se que os pacientes tiveram, na verdade, leves sintomas da
infecção. "Estamos constantemente olhando para esses dados e tentando
obter mais informações para de fato responder a essa pergunta, [mas]
ainda parece ser raro que um indivíduo assintomático transmita a
doença", completou.
A especialista pediu que os países se
concentrassem naqueles que têm os sinais da infecção para tentar fazer o
controle do vírus. "Se de fato acompanhássemos todos os casos
sintomáticos, isolássemos esses casos, rastreássemos os contatos e
colocássemos esses contatos em quarentena, haveria uma drástica redução
na transmissão. Se pudéssemos nos focar nisso, iríamos nos sair muito
bem em termos de suprimir a transmissão", afirmou.
Ministro também critica OMS
O chanceler Ernesto Araújo afirmou que o Itamaraty, em coordenação com o Ministério da Saúde,
acompanha "com muita preocupação" o papel da OMS durante a pandemia do
novo coronavírus. Durante a reunião ministerial, Araújo criticou o que
chamou de aparente falta de independência, transparência e coerência da
instituição.
"Aparentemente há falta de independência da OMS,
falta de transparência e, sobretudo, coerência em orientações sobre
aspectos essenciais... A origem do vírus, o compartilhamento de
amostras, o contágio por humanos, os modos de prevenção, a quarentena, o
uso da hidroxicloroquina, a indumentária de proteção e agora na
transmissibilidade por assintomáticos. Em todos esses aspectos a OMS foi
e voltou, às vezes mais de uma vez. Isso nos causa preocupação", disse
Araújo no encontro.
Ele reforçou que o Brasil e outros países
apoiam desde maio uma investigação da conduta da OMS durante a pandemia.
O processo de apuração teve iniciativa da União Europeia e da Austrália.
"Alguns dizem que tem que esperar o fim da pandemia, mas eu acho que
claramente não. Esse vai e vem da OMS prejudicam os esforços dos
países", afirmou o chanceler.
No dia 19 de maio, os 194 países membros da OMS, incluindo Estados Unidos e China, adotaram uma resolução que prevê uma "avaliação independente" da resposta da agência da ONU à pandemia de covid-19.
Cloroquina
Bolsonaro admitiu novamente que não há comprovação científica sobre o uso da hidroxicloroquina
para o combate à covid-19, mas voltou a defender o uso do medicamento
com base em relatos que disse ter ouvido de "pessoas infectadas e de
médicos".
O presidente também afirmou que o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, vai esclarecer, em comissão da Câmara,
tudo o que foi falado nos últimos dias sobre uma eventual recontagem
dos dados atualizados do novo coronavírus no Brasil. "A gente torce,
pede a Deus, que o mais breve possível tenhamos um ponto final nessa
questão. Mais uma vez lamentamos profundamente pela vida de todos os que
nos deixaram."
FONTE: Estadão

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