segunda-feira, 8 de junho de 2020

Nosso Farol, por Carlos Lula


A pandemia afetou de maneira diferentes a vida das pessoas. Umas mais, outras menos. Nosso cotidiano mudou. Entre as inúmeras mudanças que afetaram meus hábitos um me chateia profundamente: a rotina de leituras completamente destruída.

Ler me formou e continua me transformando enquanto pessoa. Em outro momento devo retomar meus livros e meus escritos. Mas falo de leitura para tratar de distopias. Isso, você não leu errado. Distopia. Representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias, alertando para os seus perigos.

Tenho um monte de distopias entre meus livros preferidos. Cito alguns mais famosos: “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, com sua sociedade alienada e estratificada; “1984”, de George Orwell, uma feroz crítica ao totalitarismo stalinista ou ainda “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, com a intolerância persecutória e censora do Estado aos livros.

Todos os livros narram sociedades que nos fazem ter calafrios. Imaginemos que um governo invente informações para manipular a realidade a seu favor e dá a isso o nome de “fatos alternativos”. Poderia ser no livro 1984, já citado acima, mas aconteceu quando a assessora presidencial norte-americana, Kellyanne Conway, em janeiro de 2017, em entrevista à Editora NBC, defendeu a declaração falsa de Sean Spicer, Porta-voz da Casa Branca, sobre o número de pessoas que assistiram à tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos. Não foi um erro, mas um “fato alternativo”.

Pois bem. Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse a um repórter da CNN Brasil que “agora não tem mais matéria no Jornal Nacional”. Ele respondia então a uma pergunta sobre o novo horário de divulgação do saldo de mortos pela pandemia, na atualização diária do Ministério da Saúde. Mas não só isso. Ato contínuo, houve a decisão do Governo Federal em “rever” o número de mortos, em razão da suposta inflação dos casos. O site em que eram divulgados os números do Coronavírus saiu do ar no último sábado.

Não dá para acreditar que simplesmente deixando de falar da doença, ela irá desaparecer. Eu fico então me perguntando: em que oportunidade não falar sobre o problema fez com que ele fosse embora?

Os dados do boletim epidemiológico não são apenas pautas para a mídia, eles são o farol para traçarmos nossa estratégia de enfrentamento à doença. Eles permitem que adotemos medidas sustentados por números e não por sentimentos. O meu sentimento pessoal é que a doença vá embora o mais rápido possível, para que eu possa abraçar meus familiares, visitar meus amigos, ler meus livros. No entanto, os dados epidemiológicos mostram o oposto. A quem devemos ouvir?

O perigo real e imediato da manipulação de informações não pode ser menosprezado. Fico contente quando as pessoas me perguntam sobre os dados porque estão interessadas em saber mais sobre o vírus, sobre sua cidade, sobre sua região. E tem sido essa a nossa batalha. Não apenas para saciar “curiosidade acadêmica” e muito menos para politizar a questão sobre os casos e óbitos.

Foi o escritor Mark Twain quem cunhou a célebre frase “a verdade é mais estranha que ficção, porque a ficção precisa fazer sentido, e a verdade, não”. Pois é. Twain tinha razão. Nada mais faz sentido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário