A um mês do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, os sistemas que serão utilizados na votação entram, nesta sexta-feira (4), em uma das principais etapas de preparação para o pleito. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza, em Brasília, a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas Eleitorais, procedimento que conclui o processo de compilação dos programas iniciado em 31 de agosto.
Durante os últimos dias, códigos e outros componentes foram compilados para gerar as versões definitivas dos sistemas. Nesta sexta-feira, esses programas serão assinados digitalmente e lacrados física e digitalmente. As mídias oficiais serão armazenadas na sala-cofre do TSE e, posteriormente, cópias serão encaminhadas aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) para a preparação das urnas.
O professor de Tecnologia da Informação da UniFacimp Wyden, Thalles Canela, explica que essa etapa faz parte de uma estrutura composta por diferentes mecanismos de proteção. “Quando falamos em segurança de uma urna eletrônica, o mais importante é entender que ela não depende de um único mecanismo. Existe uma estratégia que, em segurança cibernética, chamamos de defesa em profundidade: várias barreiras independentes trabalham em conjunto”, afirma.
Entre os sistemas submetidos ao procedimento estão os responsáveis pelo funcionamento da urna no dia da votação, pelo registro e transmissão dos Boletins de Urna, pelo recebimento e totalização dos resultados, pela criptografia das informações e pelo suporte às auditorias. Durante a assinatura digital, são gerados os chamados hashes, códigos que funcionam como uma identificação única dos arquivos e permitem verificar posteriormente se houve alguma modificação.
“Podemos imaginar o hash como uma impressão digital matemática de um arquivo. Se apenas uma pequena parte daquele arquivo for modificada, será produzido um hash diferente”, explica Thalles Canela. Segundo o professor, a assinatura digital acrescenta outra camada de verificação, relacionada à autenticidade e à integridade dos programas e arquivos utilizados no processo eleitoral.
FISCALIZAÇÕES
A segurança das eleições envolve procedimentos realizados meses antes de o eleitor chegar à seção eleitoral. O professor do curso de Direito da Estácio, Robson Mourão, explica que a legislação permite que diferentes instituições fiscalizem o processo, como partidos políticos, federações, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ministério Público Eleitoral, Congresso Nacional, Tribunal de Contas da União (TCU), Controladoria-Geral da União (CGU), Polícia Federal, instituições acadêmicas e entidades científicas.
“A fiscalização acontece em diferentes momentos. Na fase pré-eleitoral, é possível acompanhar o desenvolvimento dos sistemas, os testes de segurança, a inspeção do código-fonte e procedimentos como a geração de mídias e a preparação das urnas”, explica Mourão.
A Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração desta sexta-feira também poderá ser acompanhada pelas entidades fiscalizadoras. Representantes dessas instituições podem verificar a integridade dos sistemas e participar dos procedimentos de auditoria. Depois da compilação, os arquivos executáveis permanecem disponíveis no ambiente em que os códigos-fonte foram inspecionados, permitindo verificar a correspondência entre o código analisado e o programa que efetivamente será utilizado na eleição.
Os sistemas também foram submetidos anteriormente ao Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais. A primeira etapa do ciclo referente às Eleições 2026 ocorreu em dezembro de 2025, quando pesquisadores e especialistas elaboraram planos de ataque para procurar vulnerabilidades. Em maio deste ano, participantes retornaram ao TSE para o Teste de Confirmação, destinado a verificar as correções e os aprimoramentos realizados a partir dos achados da etapa anterior. Segundo o TSE, as tentativas executadas nos testes não comprometeram a integridade nem o sigilo dos votos.
Para Thalles Canela, a lógica desses testes é justamente submeter os sistemas a tentativas de exploração antes que sejam utilizados pelos eleitores. “Em segurança da informação, sistemas complexos devem ser constantemente questionados, testados e aperfeiçoados. Esse processo de testar, encontrar pontos de melhoria, corrigir e testar novamente é uma prática muito importante em segurança cibernética”, explica.
FUNCIONAMENTO DA URNA
Outra camada de segurança está no próprio funcionamento da urna eletrônica. O equipamento utilizado para registrar os votos não permanece conectado à internet, a redes externas nem a nenhum tipo de sistema de comunicação sem fio durante a votação.
Por isso, segundo Thalles Canela, é impreciso imaginar um invasor acessando remotamente uma urna enquanto os eleitores estão votando. “Um ataque remoto convencional contra a urna durante a votação não encontra o canal de comunicação necessário para ocorrer”, esclarece. O professor acrescenta ainda que eventuais ataques físicos enfrentariam outras barreiras, como lacres, verificações de assinaturas digitais, cadeia de segurança do hardware, controles sobre os programas instalados e procedimentos de fiscalização e auditoria.
Quando a votação termina, a apuração dos votos daquela seção acontece na própria urna. É nesse momento que é gerado o Boletim de Urna (BU), documento que apresenta a quantidade de votos recebidos por cada candidatura, além dos votos brancos, nulos e outras informações referentes à seção.
Uma cópia do BU é impressa no próprio local de votação antes que os dados sejam enviados para a infraestrutura responsável pela totalização. Os arquivos eletrônicos são gravados na Mídia de Resultado, retirada da urna e encaminhada a um ponto autorizado de transmissão da Justiça Eleitoral.
“O Boletim de Urna transmitido é assinado digitalmente e protegido criptograficamente. Quando chega aos sistemas responsáveis pela totalização, passa por verificações de autenticidade, integridade e conformidade antes de ser aceito”, explica Thalles Canela.
A existência do BU impresso cria ainda uma possibilidade de conferência posterior. O documento produzido na seção pode ser comparado com o Boletim de Urna disponibilizado eletronicamente pela Justiça Eleitoral, permitindo verificar se o resultado publicado corresponde ao que foi registrado antes da transmissão.
APURAÇÃO
A atuação das entidades fiscalizadoras também não termina quando o último eleitor vota. De acordo com Robson Mourão, a legislação eleitoral prevê acompanhamento no encerramento das urnas, na recepção e transmissão dos arquivos, na totalização dos resultados e em procedimentos posteriores relacionados ao processo eleitoral.
“A segurança e a transparência do pleito estão estruturadas a partir de princípios constitucionais como a publicidade e a soberania popular e são regulamentadas pelo Código Eleitoral, pela Lei das Eleições e pelas resoluções do Tribunal Superior Eleitoral”, explica o professor.
Para Thalles Canela, compreender a existência dessas diferentes possibilidades de verificação ajuda a esclarecer como a segurança é construída ao longo de todo o processo. “Segurança eleitoral não deve depender de confiança cega em uma tecnologia. Ela deve depender de mecanismos que permitam testar, fiscalizar, auditar e conferir o processo. É justamente a combinação dessas diferentes camadas que aumenta a capacidade de detectar falhas ou alterações e reduz a possibilidade de um ponto de comprometimento que afete o processo eleitoral”, conclui.

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