Recentemente, eu voltei a ler a obra Utopia, do humanista e escritor inglês, Thomas More. Nunca foi tão necessário retomar o texto e compreender como, embora um livro de ficção escrito em 1516, suas críticas permanecem tão atuais e necessárias ao nosso tempo. A sociedade, em especial o Brasil, continua a percorrer rumos decadentes na economia, na gestão, no poder.
Nenhum momento da nossa história recente exigiu tanto de nós uma reflexão quanto a pandemia. Como bem escreveu Thomas More: um governante que vive solitariamente no luxo e nos prazeres, enquanto à sua volta todos vivem em meio ao sofrimento e lamentações, estará atuando antes como carcereiro do que como um rei. Tal como um médico incapaz, que não sabe tratar de um mal senão por um mal maior, o soberano que só sabe governar seus súditos privando-os de todas as comodidades da existência, reconhece abertamente que é incapaz de comandar homens livres.
Ao assumir o cargo de gestor da Saúde, me propus a exercer a função de servidor do nosso povo. O que encontrei na Secretaria? Uma pasta onde o povo não tinha acesso à saúde pública. Gastava-se mal e o maranhense ficava, em grande parte das vezes, à própria sorte. Ir a estados como São Paulo, Goiás, Tocantins, Piauí e Ceará para encontrar tratamento era algo comum. O êxodo para fugir da morte. Essa era a verdade.
O Maranhão possuía uma rede hospitalar muito frágil, sem serviços descentralizados de diálise para pacientes renais crônicos ou oncológicos, por exemplo. Ambulâncias para transporte de pacientes graves, as Unidades de Serviço Avançado, eram restritas a poucas cidades.
As cirurgias eletivas eram reduzidas a algumas poucas unidades de saúde e leitos de UTI na rede estadual existiam apenas em São Luís, Presidente Dutra e Coroatá. Tínhamos mais propaganda que saúde pública.
Por isso não podemos nos esquecer a caminhada, desde 2015, que nos trouxe até aqui. A rede hospitalar descentralizada e distribuída pelo estado permitiu uma resposta mais favorável do nosso estado ao enfrentamento à Covid-19. Os mais de 5 anos de investimentos pré-pandemia fizeram diferença no momento da mais grave crise sanitária recente.
Para além do que já tínhamos começado, prosseguimos com os investimentos em 2020 e 2021. No olho do furacão. Desde a conclusão de obras de hospitais em poucas semanas, abertura de unidades provisórias, contratação de milhares de profissionais de saúde, capacitação das equipes de saúde dos municípios, distribuição de testes e vacinas, cooperação com a vacinação nos municípios. Tudo garantiu ao Maranhão a menor mortalidade por Covid-19 do país.
Ainda assim, os maranhenses poderiam ter visto uma melhor resposta do Sistema Único de Saúde se a atenção primária, de responsabilidade dos municípios, ofertasse sua estrutura de saúde para atendimento à população nas 217 cidades. Se os pacientes com dor de cabeça, estômago, febre leve não buscam as unidades de saúde dos bairros e tentam ir direto à atenção secundária e terciária, algo está errado.
Com meses ou anos de gestão, a pergunta necessária neste momento é o que está sendo feito para melhorar o sistema de saúde local e atender as demandas da população agora?
Sabemos que o caminho ideal, o caminho perfeito é uma Utopia. Verdadeiramente, ficará descrita apenas no livro de Thomas More, mas é uma reflexão necessária a todos os gestores do nosso país, do nosso estado e dos municípios maranhenses.
Uma coisa é certa, o Maranhão hoje recebe pacientes de outros estados porque nossa rede suporta e responde à necessidade de tratamento dos pacientes. Embora com uma pandemia no meio do caminho, seguimos desafiando a crise sanitária, econômica e política – para fazer deste estado uma referência em saúde não para os que estão lá fora, mas para o nosso povo.
É pela vida e por qualidade de serviços públicos a nossa luta de todos os dias. A Utopia de Thomas More nos desafia à coragem.

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